ALOE NOS TEMPOS

Jornadas históricas de um presente para a humanidade

Jornadas históricas de um presente para a humanidade

Nenhum território se fez fronteira para a nossa guerreira seivosa. Pelos quatro ventos ela ainda semeou sua miríade de maravilhas e seu vigor gelatinoso

Navegar pela memória é um exercício para fortalecer nossa consciência e ampliar nossa visão de mundo. Saber onde estamos e quais os nossos possíveis papéis no grande espetáculo da vida é fundamental para aproveitá-la ao máximo. Por isso, adoramos contar histórias e trocar experiências. É claro que nossa protagonista não poderia ser outra além da jovial princesa Aloe. Jovial sim, mas não tão jovem assim.

Era uma vez, há cerca de quatro mil anos, em um reino distante nas cercanias do Golfo Pérsico, a antiga Suméria, um sacerdote que registrava em pequenas tábuas de argila, na cidade de Nippur, as propriedades medicinais da babosa. Ora, ora, vejam só que honraria. Logo nos primeiros escritos da humanidade a imperatriz Aloe estreia ilustre e frutuosa. Assim não há coração que aguente. E olha que a jornada é longa.

Adiante, por volta de três mil anos atrás, mais ao sul e ao ocidente, nas quadras sagradas de Tebas do Egito Antigo, entre as areias escaldantes e o transbordar do Nilo, nossa heroína era detalhada pelas mãos precisas dos escribas nas paredes dos templos e inscrita nos papiros em fórmulas mágicas. Reconhecida como o sangue dos deuses, a sublime e imponente Aloe era consagrada celebridade entre as dinastias reais. Bálsamos, unguentos e elixires eram requintados de sua polpa para servir à beleza de Cleópatras e Nefertitis.

Para descansar do sol incandescente das pirâmides, a ninfa verde e suculenta se lança às veredas da Índia. Vestida como a deusa-menina Kumari, símbolo da pureza intocável, nossa divindade mirim irradia sua força para tratar e curar as desarmonias do ciclo menstrual e abrandar as mazelas da pele. Dos Himalaias ao Querala, a pequena Aloe é o sopro feroz das energias femininas.

Dos amores discretos de Kumari, nenhum foi tão grande como o de Alexandre Magno. Sem resistir aos deleites de Aloe, dizem que o príncipe macedônio conquistou uma ilha inteira, a Socotra, na ponta leste da África, apenas para tê-la em sua companhia. Há dois mil e quinhentos anos, em suas batalhas, seu grande trunfo era abastecer suas tropas com reservas grandes da preciosa mucilagem para sanar os ferimentos de seus guerreiros.

Nenhum território se fez fronteira para a nossa guerreira seivosa. Pelos quatro ventos ela ainda semeou sua miríade de maravilhas e seu vigor gelatinoso para acalmar, harmonizar, cicatrizar e zelar pelos males e feridas presentes. Da civilização chinesa e seus imperadores a América Central dos Halachs maias, dos xamãs Seminoles da América do Norte a atrocidade nuclear de Hiroshima, o alento curativo e a fibra vital da rainha babosa sempre estiveram enraizados como um signo de esperança.